REFLEXÕES A DEUSA DA SAÚDEOu de como a doença pode significar a perda da poesia de viver abril de 2000 A deusa da saúde mora no mais íntimo de você mesmo, nas mais recônditas articulações de seu corpo, nas suas relações de amizade ou familiares; a deusa da saúde é um ato de volição, uma filosofia alimentar, uma disciplina de condicionamento físico, a troca de afeto entre queridos, a consciência de quem se é no momento em que se vive, a busca de soluções por meio da poesia e não pelo padrão condicionado da sociedade; a deusa da saúde por conseguinte é a deusa da prosperidade, da fortuna orgânica, emocional e monetária. Para se acessar sua força é necessário um pouco do estado de espírito que Erasmo de Roterdão evocou em seu Elogio da Loucura; deixar florescer uma capacidade inerente à humanidade - olhar-se de fora e permitir-se um pouco de folia existencial, de dança, de stultitia, do riso, da moria grega; saber que aquele que diz "devo" fazer, devo realizar, devo ser feliz, devo amar é candidato certo a ansiedade, hipertensão, cardiopatias; melhor seria perceber o que quer, o que deseja, o que encanta, o que ama realizar. Um pouco de irresponsabilidade pode ser a chave para a saúde, um pouco de carnevale, alegria, de mocidade do espírito só fará bem nas suas noites e dias de rotinas. Um pouco de embriaguez de viver, um pouco de rusticidade - um estado de espírito indômito - muito fará pela saúde. É claro para mim, que um traço que seja, de paixão, de vontade, de preferência, de libido, pode remover montanhas, pode mudar rumos, pode iluminar casais, definir profissões. *Mas de pouco valeria apresentar-me (a loucura)** como seminário (sementeira, semeadura) e fonte da vida se não vos demonstrasse também que me deveis todos os prazeres da existência. Que seria a vida, que poderia dizer-se da vida, se lhe faltasse a voluptuosidade? Aplaudis, meus amigos? Já sabia que nenhum de vós é bastante sábio, ou bastante louco, digamos bastante douto, para ter outra opinião. Nem mesmo os estóicos (que condenavam todas as emoções, exaltando a apatia) desprezam a volúpia; e se em público a escarnecem, dissimulam para assim afastarem os outros e gozarem sossegadamente. Mas dizei-me por Jove: Não é verdade que a vida seria triste, aborrecida, insípida, molesta, se não tivesse o condimento do prazer, da folia e da loucura? Posso invocar o testemunho idôneo de Sófocles (criador da tragédia Édipo Rei) nunca por demais louvado, que me fez o mais belo elogio: Quanto maior for a sabedoria, menos feliz a vida. E se para viver bem é obrigatório um quinhão de ousadia, de curiosidade, de graça juvenil, de candura infantil, delírio e sonhos e fantasias, para viver mal, não vedes esses rostos tétricos que os estudos filosóficos ou que as dificuldades dos negócios fazem envelhecer antes do tempo, porque a cogitação assídua acaba por azedar o espírito e por exaurir a seiva da vida?* As faces sisudas, a sensatez melancólica, a eterna seriedade ansiosa dos homens e mulheres perdidos em infindáveis contendas de negócios, em escaramuças familiares, produzem a grande maioria das misérias do corpo e dos sentimentos. Diz-se que as doenças psicossomáticas são o produto da inadaptação da pessoa ao seu meio, no entanto o que se observa é a excessiva adaptação do sujeito ao ambiente ou ainda uma necessidade doentia de responder afirmativamente às pessoas e situações, morrendo a vontade própria o desejo, a libido. Esse é um processo que geralmente começa na família estendendo-se para todas as relações da pessoa. Assim, o que proponho é um quê de loucura no viver para dar o sal à personalidade; você já percebeu que as pessoas respeitam mais a ousadia que a apatia, o sonho e a curiosidade que a contenção emocional, a alegria que a máscara feérica da sisudez? Aplaude-se de pé a sabedoria de vida regada a sorrisos e criatividade e não a rispidez do criticismo, seja ele contra si mesmo ou contra o outro. É o quanto você se sente vivaz, energético, vibrátil que conta para o mundo; é o tom de sua voz, o brilho nos olhos, a limpidez dos movimentos; seus trejeitos e seus modos mais inusitados, não previsíveis, que dão a nota mais visível na tediosa repetição de certos ritos de sobrevivência social! A essa pérola escondida no âmago do ser humano aqui chamo pelo nome Poesia de Viver, a Deusa da Cura; mais cara e brilhante que o saber lógico, o conhecimento dos números ou uma retórica perfeita. Se tenho um recado ele pode muito bem ser esse: viva a vida como a única que possui, com alguma embriaguez, com um naco de ousadia, com um tisnado de paixão - e se isso não trouxer de pronto a alegria de viver, certamente será a ferramenta mais importante nesse sagrado afã. *Os textos em itálico são excertos de Erasmo de Roterdão in O Elogio da Loucura, Guimarães Editores, Lisboa, 1993. **Os parênteses são meus. Se, por um dia apenas, ou mesmo algumas horas e não raro por apenas alguns minutos, você se permitir mudar, um pouco que seja, seu ângulo de visão e abordar as questões existenciais de uma posição outra, além daquela que está habituado a vivenciar, isto operará milagres em sua saúde e no meio ambiente. Costumo dizer que este novo ângulo de visão deve ser esculpido da rocha bruta do existir, porque, na maior parte das vezes, isso não se dá de modo espontâneo; depende de limar para pegar o fio, de esmerilhar para ganhar arredondados, de entalhe para florescer quinas, de polimento para adquirir luz. Estas intervenções, necessariamente produzem vitalidade em todas as "regiões" do ser, desde os substratos mais íntimos da personalidade até sua inserção na sociedade, elaborando pessoas perceptivas, ágeis mentalmente, sensíveis emocionalmente.
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