CONTOS A SERPENTE Conta um conto entre os Kshatriyas, a casta guerreira de um povo dentre os mais antigos dentro da Índia, que nos arredores da tribo dos seus avós foi morar uma cobra naja, extremamente venenosa, agressiva, e dizem, maldosa; ao menor movimento à sua volta atacava e feria mortalmente, tanto animais como humanos. Sua agressividade era tal que os homens e mulheres apelidavam outros homens e mulheres, que tinham a personalidade semelhante à da naja, de “a naja que ataca sem discriminação”. Então ocorria, eventualmente, de alguns entre os aldeões, serem chamados de naja, o que era um depreciativo e ao mesmo tempo um aviso de que aquela pessoa agredia sem razão aparente. Foi assim que naquelas pastagens e bosques ninguém se aventurava. Diziam que ela estava em todo lugar e à menor distração vitimava sem aviso prévio. No início muitos magos, feiticeiros e mulheres advinhas tentaram admoestar a serpente, com ameaças celestes ou infernais. De nada adiantou. Depois invocaram doenças para a serpente, através dos ashuras, os demônios da natureza e a cobra ficou mais perigosa. Tentaram o uso de venenos criados por bruxas das terras do norte e nada; finalmente e sem sucesso, contrataram guerreiros destemidos para caçá-la, o que piorou o caso. Gastaram com eles seus dotes na forma de porcos, cabras, galinhas e grãos e ficando ainda mais enfraquecidos. A coisa estava fora de controle, e de tal modo o desânimo se abateu por sobre a aldeia que muitas famílias se retiraram, reduzindo drasticamente as trocas de produtos e serviços entre si, coisa gravíssima, porque ao sair da aldeia deixavam de ter autonomia para se tornar escravos dos aldeotas vizinhos. Certo dia chegou nas vizinhanças um grande mestre, daqueles que atingiram kaivalya – uma mistura de plenitude emocional e consciência de si-próprio. Tinha os olhos perdidos na vastidão do Absoluto. Sua fama era como uma aura de quilômetros à volta; onde passava deixava sua marca no coração dos homens. Era um grande dia para a aldeia, pensou o líder, pois aquele homem era dos poucos que em sua santíssima alma, desenvolvera o poder de comunicar-se com bichos de qualquer índole e espécie. Mandaram um emissário ao mestre, que de pronto atendeu o chamado do líder, indo ter com ele uma conversa curta e objetiva. O aldeão começou e terminou sua solicitação quase em uma única frase; após beijar a roupa do santo homem, concluiu: - ... E assim todos nós gostaríamos que o senhor nos ajudasse, expulsando a cobra para outro lugar, evitando mais mortes e a destruição de nossa cultura, já tão precária. - Não posso simplesmente expulsá-la, pois ela tem direito a um lugar para viver, de onde tira seu alimento e onde constrói sua família. Vou ter com ela e ver o que é que pode ser feito. O mestre foi lacônico, e expedito, saiu em direção à orla da floresta. Não precisou andar muito para avistar a grande naja sobre uma pedra, vigilante e ameaçadora. Olhava diretamente para seus olhos e foi logo dizendo: - Que insolência é essa? Não sabes que o pagamento para quem anda nestas paragens é a vida? Seus olhos lampejavam e sua voz indescritível parecia sair da própria rocha. Na verdade ela mesmo parecia ser constituída da natureza que a cercava. Era como se seu corpo fosse uma eflorescência dos troncos das árvores, fincado nos confins da terra. Seu sangue parecia ter o calor da lava incandescente e pulsava como as estações. Talvez por isso sua fama aterradora e sua aparente indestrutibilidade. Foi ameaçar e escorregou rocha abaixo deslizando sorrateira pela vegetação. Quando chegou a dois metros do homem, levantou-se equilibrando-se em uma rodilha feita pela própria cauda, sibilou abrindo imensas aletas logo abaixo da cabeça, investigou o ar com sua língua bífida e disse em tom rascante: - Seu destemor, meu caro senhor, só fará minha tarefa ainda mais fácil. Prepare-se para fazer parte do meu corpo, através da eternidade. Para sua estranheza o homem não pestanejou. Olhou-a no fundo dos olhos sem se perder no seu brilho e lhe perguntou: - Cara senhora, tens fome? - Estou completamente saciada; disse sibilando. Não se trata de alimento e sim apenas de proteger meus interesses. Você está pisando em minha propriedade e não tenho a intenção de dividi-la com nenhum outro ser. Bafejou diretamente no rosto do andarilho. - Além disso conheço a raça humana e seus animais de estimação. Se eu não atacar primeiro vocês me destruirão sem pena e sem remorso. Então é uma questão de esperteza e força bruta; vence quem for mais forte, mais agressivo, mais apto, mais adaptado. E como bem verás estou no meu espaço, no meu elemento. Aqui sou imbatível. A serpente sibilou a frase e afastou-se para dar o bote mortal. O homem apenas ergueu a mão esquerda em concha, na altura do estômago, pousando a direita com o punho fechado e o polegar em riste apontado para o céu. O gesto paralisou a serpente em pleno bote. A única parte de seu ser a se movimentar era justamente o discernimento. E foi com ele que pôde ouvir e aceitar os conselhos do mestre andarilho. - Ó grande kundaliní, senhora das serpentes! Está na hora de iniciar uma outra relação com os homens e a civilização que se aproxima da orla da mata. Chegado é o dia de viver em ahimsa, sem violência de qualquer espécie, sem barbárie, em cooperação. Rogo-te que use a imensidão de seu poder para instaurar uma nova era de paz nesse reino, pois que apenas a não-violência poderá erigir um universo de segurança, um cosmo de paz, um mundo de felicidade! O andarilho se aproximou, tocou-a no centro da testa e ela teve a visão das seis consciências. Começou tendo uma visão de sua condição serpentina. Viu-se no centro da evolução cósmica, procriando filhos gerados do magma da terra. Finalmente teve a sexta visão, onde era a mãe da humanidade. Ao sair do êxtase, mal acreditava que era ela a genitora da própria aldeia que insistia em destruir. Tomada por imensa dor que lhe queimava as entranhas jurou jamais causar dor a qualquer ser vivo. - Ó, homem-que-apenas-caminha, percebi o começo e o fim, os meios e os propósitos da existência e entendi meu papel nesse mecanismo. De hoje em diante serei uma guardiã da paz na cidadela do meu coração. Foi dizer e saiu do encantamento, escorregando o corpo dócil pelas entranhas da rocha. Um ano depois o homem-que-apenas-caminha retornava pelo mesmo caminho, visitando as cidades e fazendo suas preleções, milagres e intervenções políticas, quando uma multidão da aldeia que era atacada pela serpente veio lhe fazer as oblações, oferecer incenso e dar presentes pelo sucesso que teve em convencer a cobra a deixá-los em paz. Quando deixava a aldeia para continuar seu eterno caminhar, encontrou Kundaliní, que só pôde reconhecer depois dela se apresentar. Estava esquelética e ostentava ferimentos em quase todas as partes do corpo. Depois de cumprimentá-lo com voz sumida foi logo dizendo: - Homem-que-apenas-caminha, ansiei muito pela sua volta, esperando seus conselhos, que me foram tão decisivos na vida. Foi embalada na certeza de que esse é o melhor meio de se viver é que adotei sua filosofia da não-agressão. Abandonei meu orgulho e envidei toda minha energia em não causar nenhum mal a qualquer ser vivo. - Para me alimentar comi seixos, gravetos secos ou carcaças de bichos já mortos. Essa foi a parte mais fácil da minha reabilitação. Difícil mesmo foi conviver com o escárnio e agressão a que fui submetida, constantemente, diariamente. Todos os dias me pisam com sua sandálias, me cuspem e denigrem meu caráter. - Por isso venho pedir sua bondosa interferência para que eu possa sobreviver pelo menos até compreender essas sutilezas do espírito humano. O sábio andarilho que apenas ouvira em silêncio, coçando preocupadamente o rosto barbudo, empertigou-se em seu assento de capim e disse: - Minha senhora, tendes razão. Algo precisa ser feito em nome de sua integridade física e moral. Quero aconselhá-la a buscar os serviços de um homem que seja imparcial para advogar em defesa de seus direitos. Esse advogado representá-la-á em uma corte para iniciar um processo que termine por livrá-la da agressão dos homens. - Entendo. Quer dizer que não basta eu não ser violenta? Não-violência não é condição sobre a qual imediatamente aparece a não-violência. Falar em paz não gera exatamente a paz? E se eu não conseguir um homem imparcial nestas paragens? O mestre coçou a barba, olhou fixamente o chão tentando achar algo que pudesse ajudar a serpente combalida pelas próprias crenças. Suspirou fundo e finalmente disse: - Bom, nesse caso quero lembrá-la minha cara senhora, que quando aconselhei-a a não usar de violência, não disse que não poderia sibilar, avisando o quanto é perigosa e o quanto está disposta à auto-defesa. Tenha boa sorte, que preciso continuar. A serpente ficou lá no mato decorando aquela frase. Daí em diante usufruiu de razoável paz na vida. Teve que sibilar quase todos os dias e eventualmente feriu algum agressor. Nada demais, pois descobriu que os homens acreditavam em legítima defesa e seu advogado, para sua sorte, tinha uma sábia imparcialidade. No começo estranhou que houvesse lei dos homens e lei dos mais fortes, mas depois acostumou-se à idéia. Logo engordou com um ou outro bicho e suas feridas viraram apenas cicatrizes. |
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